Cesario Alves
FORTUNA REDUX

 

FORTUNA REDUX
(2017) Video HD, 3min 50 sec.

 

Um projeto de investigação artística (em desenvolvimento) de Cesário Alves e Nuno Tudela.

A partir de projeções de uma cópia de “O EMIGRANTE ” de João Mendes (PT, 1955, 16 mm, P&B, 5 min.) e de diapositivos Kodachrome 35mm encontrados, sem data e de autoria desconhecida.

 

An artistic research (under development) by Cesário Alves and Nuno Tudela.

From projections of a copy of “O EMIGRANTE” by João Mendes (PT, 1955, 16 mm, B & W, 5 min.) and found Kodachrome 35mm slides, undated, with unknown authorship.

 

Este filme resulta da gravação de duas projeções simultâneas em plano único sem interrupções. Numa das camadas vemos uma cópia em película de 16 mm do filme “O Emigrante” de 1955, com coordenação técnica e montagem de João Mendes e produção de Ricardo Malheiro, para o Ministério da Educação Nacional. Cópia que pertence ao acervo histórico do Politécnico do Porto. Na outra projeção sobrepõem-se Kodachromes, diapositivos de 35 mm a cores, que nos mostram fotografias de viagens pelo mundo, que refletem claramente o fenómeno do turismo.

Enquanto o filme “O Emigrante” está perfeitamente identificado e datado, desconhece-se a autoria das fotografias. Tratam-se de imagens órfãs, adquiridas no mercado global de feiras da ladra e leilões on-line, em lotes coletivos sem identificação prévia. Apesar da falta de informação associada, é perfeitamente evidente que estes slides pertencem à segunda metade do século XX e refletem o relativo optimismo do pós-guerra, bem como a liberdade e o poder económico de quem pode viajar por curiosidade ou diversão.
Embora as épocas destas duas camadas (a do filme e a dos slides) possam não ser coincidentes, estão aqui sobrepostas duas formas de encarar a viagem: a que se faz por prazer e a que se faz como resultado do desespero e sofrimento. O que pretendemos ao mostrar a sobreposição destas duas formas de encarar a viagem, é reforçar a ideia de que se faziam e continuam a fazer hoje em simultâneo, revelando as assimetrias dos sistemas económicos e políticos do nosso tempo.

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O meu principal objeto de investigação é o que se chama de fotografia vernacular. O vernacular diz respeito às coisas locais e à vida das pessoas comuns. O historiador Geoffrey Batchen (Australia) escreveu que as fotografias vernaculares são as que dizem respeito à nossa casa e ao nosso coração. Dentro deste universo, interessa-me particularmente o fenómeno das fotografias que se perdem e se encontram e aquilo que os artistas, historiadores e curadores fazem com elas.
Batchen tem um trabalho inovador nesta área, ajudando a disseminar o conhecimento sobre este tipo de fotografias num ambiente mais erudito e académico, mas há também uma proliferação de eventos mais ou menos visíveis de pessoas que colecionam avidamente fotografias vernaculares encontradas e que até se especializam em temas concretos. Há casos que aparecem na comunicação social, que se divulgam e ampliam nas redes sociais e que daí passam para o mundo tangível das exposições e dos livros.

Por outro lado vemos artistas plásticos como Joachim Schmid (Alemanha), Erik Kessels (Holanda) ou Thomas Sauvin (França), colecionando e apropriando-se destas fotografias abandonadas, descontextualizando e relacionando-as, por vezes de forma épica, ao longo de décadas. Deste modo permitem a sua descoberta e análise a uma outra luz, que não a da história da fotografia tradicional, das grandes inovações técnicas e dos grandes autores.

O que alimenta estes fenómenos é a imensidão de fotografias pessoais dos séculos XIX e XX que se perdem e se desligam dos seus criadores aparecendo num mercado global, agitado por comerciantes de antiguidades, colecionadores, curadores, bancos de imagens e eventualmente artistas.

Na minha investigação em particular, interessa-me colocar o legado fotográfico da minha família em perspectiva, na relação com as fotografias que encontro e coleciono. O que descobri ao ler autores como Pierre Bourdieu (França) ou Patricia Holland (Reino Unido) é uma evidência, algo que reconheço porque o senti na pele: que a produção fotográfica no seio das famílias até meados do séc. XX é claramente um reflexo do seu nível de vida. Quanto menor o estatuto e rendimento de uma família menos fotografias produzia ou encomendava e desse modo reflete-se o poder económico, social e político nos legados fotográficos pessoais.

No fundo, aquilo que procuro no meu trabalho de doutoramento, que desenvolve um interesse pessoal que se iniciou nos idos anos 90 do século passado, é ir ao encontro da minha condição de descendente de operários que mal tiveram acesso à alfabetização, procurando entender as condições da minha formação como pessoa e potencial artista/investigador.

C. Alves, 2017